DIÁRIO DO HOSPÍCIO
Por psicólogo Geofilho Ferreira Moraes
CRP-12/10.011
Data 22 de maio de 2011
Célia Ferreira
Diário do Hospício
Em Diário do hospício Lima Barreto descreve o período da sua segunda
internação no Hospício Pedro II (de 25 de dezembro de 1919 a 2 de
fevereiro de 1920), compondo simultaneamente uma “escrita de si” e uma
crônica do manicômio que desvela as particularidades de uma sociedade
artificial, forjada em nome do desatino.
O texto é um relato íntimo
pontuado por anotações esparsas, impressões, confissões, inconfidências
e, sobretudo, por uma visão muito peculiar da instituição psiquiátrica e
da loucura. Sob os diagnósticos de neurastênico e alcoólatra – o que
lhe rendeu delírios temporários, o estigma social e a perseguição da
polícia – Lima escreveu o registro da sua experiência no local que
cunhou de “cemitério dos vivos”. Transformou a escrita numa estratégia
de sobrevivência ao hospício e produziu um raro documento da história da
psiquiatria no Brasil.
Desde o início do diário percebe-se como essa
escrita é contaminada pelo círculo de vícios do entorno, constituindo
um reflexo imediato das experimentações perpetuadas desde que a
sociedade caiu na tentação do controle do incontrolável – a contenção da
loucura. Frente à complexidade do insano, a humanidade optou por isolar
aqueles considerados “loucos” – prática que ganhou consistência teórica
no século XIX, quando a medicina apropriou-se do “alienado”, e a
psiquiatria foi formulada com base em argumentação científica.
Lima
denuncia o saber-poder médico e documenta um dos períodos da História em
que o indivíduo socialmente inadaptado, portador ou não de sintomas
psiquiátricos, recebia o lacre de maldito e, por conseqüência, um
prontuário médico no hospício. Sob o jugo do Estado, aprisionado pela
polícia numa instituição com o aval da família, Lima assistiu à
desapropriação da sua existência em meio à massa formada por casos
graves de distúrbios mentais. O diário constitui a prova da sua exceção:
esta escrita da acusação, que põe o social sob juízo e inverte o jogo
perverso da psiquiatria ao denunciar sua arbitrariedade e o abuso do
poder, consolida-se como uma não-ficção autobiográfica, marcada pela
urgência do autor em se exprimir e se insurgir contra o sistema
dominante que o controla. Marcada por excessiva subjetividade, essa
escrita produzida na instituição, paradoxalmente anti-institucional,
constitui dicção literária que reflete o intricado diálogo entre
escritor e instituição.
Em História da loucura na Idade Clássica,
Michel Foucault mostrou como o classicismo (séculos XVII e XVIII) lidou
com a loucura, aprisionando-a em casas de internamento destinadas a
miseráveis, doentes e tipos considerados “a-sociais” sob o julgamento
moral da época. A Europa do século XVII deu início à prática da
internação como forma peremptória de isolamento daqueles que a sociedade
considerou “rebotalhos”, refugos não absorvidos no cotidiano pela
aristocracia e burguesia – antes disso, há registros de hospitais
reservados a loucos no mundo árabe desde o século VII, contendo
tratamentos médicos que incluíam a utilização de música, dança, fábulas;
sob esta influência, a Espanha realizou experiências similares no
século XV. Ao longo dos séculos, o diagnóstico foi acentuadamente moral,
sendo o pedido de internação (em grande parte dos casos) uma iniciativa
da família do “louco”, com o conseqüente referendo da Justiça. A
medicina apropriou-se da insanidade com todas as classificações nas
áreas de frenologia, nosografia etc. a partir do século XIX, época em
que alienistas como Pinel e Esquirol consolidaram a psiquiatria como
ciência responsável pelos “alienados”.
Ao ser internado nas
primeiras duas décadas do século XX, Lima Barreto recebeu a pesada
herança do século anterior, esquivando-se, no entanto, do período
seguinte, marcado pelo surgimento das parafernálias mais violentas
inventadas para o controle do delírio. Ao interpretar a linguagem das
neuroses e psicoses no final do século XIX, a psicanálise de Freud abriu
um caminho inicialmente paralelo ao dos manicômios, enquanto estes
prolongaram, ao longo do século XX, a vocação experimental para a
aplicação de métodos como o eletrochoque (criado como terapia em 1928) e
a lobotomia (invenção do português Egas Moniz datada de 1936, que lhe
rendeu o Nobel de Medicina) e para a utilização de uma farmacologia
psiquiátrica passível de amenizar sintomas em troca de efeitos
colaterais danosos. A teoria psicanalítica permaneceu paralela, à margem
dos hospícios, por boa parte do século em questão, sendo gradativamente
absorvida pela psiquiatria somente a partir da luta do movimento
antimanicomial, fortalecido nas últimas décadas.
Pode-se ler o diário
de Lima Barreto como um paradigma do aspecto negativo da psiquiatria,
uma vez que o escritor enquadrou-se em inúmeros argumentos da época para
a internação, sendo a maioria de natureza moral, decorrência do rígido
juízo social. Diário do hospício possui, entre outras funções, a de
resposta à instituição endereçada a seus dirigentes. A leitura do texto
como o manuscrito de uma revolta requer, portanto, uma breve
investigação da evolução da loucura – não desta “em si”, pois a
complexidade do tema perpetua-se e impede sua inoculação num coeficiente
absoluto, mas da forma como a sociedade classificou e lidou com a
insanidade, apropriando-se arbitrariamente do personagem “louco”.
Quando
Lima Barreto deu ao hospício o epíteto de “cemitério dos vivos” (este é
também o título do romance do autor, passado num hospício, originado em
grande parte das anotações no Diário do hospício), concentrou no termo
parte da história da loucura, desta poética mórbida capaz de
simultaneamente atrair e aterrorizar. Michel Foucault mostrou como o
tema da morte, que imperou no mundo ocidental até a segunda metade do
século XV, foi substituído, nos últimos anos deste mesmo século, pela
loucura, no lugar que era do vazio da existência: “(...) agora a
sabedoria consistirá em denunciar a loucura por toda parte, em ensinar
aos homens que eles não são mais que mortos, e que se o fim está
próximo, é na medida em que a loucura universalizada formará uma só e
mesma entidade com a própria morte.” (FOUCAULT, 1995, p.16).
Enquanto
o pensamento medieval, eminentemente religioso, estabelecia a exclusão
social como uma espécie de reintegração espiritual, uma redenção pelo
sofrimento, o classicismo (séculos XVII e XVIII) acolhia uma novidade, a
grande descoberta: o terror por trás da loucura passava a ser
reconhecido como pertencente à própria natureza humana. O inferno não
era o outro, mas residia no interior do homem; era o terror em si, de
si.
Lima Barreto escreveu para dar ordem a este interior; escreveu
para não enlouquecer, ou simplesmente optou por “escrever para não
morrer”, como enunciou Maurice Blanchot (BLANCHOT, 1987, p. 90). Diário
do hospício exacerba um ceticismo, que muitas vezes beirou o niilismo e
flertou com a morte. Primeiramente, o escritor confessou: “Vejo a vida
torva e sem saída.” (BARRETO, 1993, p. 50). Posteriormente, afirmou:
“Suicidou-se no pavilhão um doente. O dia está lindo. Se voltar a
terceira vez aqui, farei o mesmo. Queira Deus que seja o dia tão belo
como o de hoje.” (BARRETO, 1993, p. 51).
A experiência no hospício
levou Lima ao espaço dialético em que vida e morte se unem. O diário
reflete a explanação de defesa de um réu isolado diante do tribunal
social, provavelmente em busca de uma auto-absolvição. Na condição de
interno, o escritor não via possibilidade de ser ouvido em suas
indagações existenciais. Neste grande vazio, a proximidade de uma
loucura equivalente à morte desfiou a memória e configurou uma “escrita
de si” que tem explicação no seguinte enunciado de Blanchot: “(...) não
se pode escrever se não se permanece senhor de si perante a morte, se
não se estabeleceram com ela relações de soberania. (...) Por que a
morte? Porque ela é o extremo. Quem dispõe dela, dispõe extremamente de
si, está ligado a tudo o que pode, é integralmente poder (BLANCHOT,
1987, p. 90)”.
Lima Barreto igualmente escreveu o Diário do hospício
na região em que o grande temor e o poder extremo e integral de si
perante a morte complementavam-se e se aniquilavam. A perda da
identidade e da cidadania, acrescida do abandono e da solidão impostos
pela autoridade social, é um dos temas dominantes do diário.
O autor
era o ponto de interseção dos clichês do hospício: pobre, mulato,
bêbado, “a-social”. Sobre o primeiro destes rótulos, torna-se importante
lembrar como, desde o século XVII, a pobreza se irmanou à loucura.
Enquanto a Idade Média santificou a miséria, pelo mérito de redenção dos
ricos, o classicismo isolou pobres e excluídos: a Grande Internação foi
decretada em 27 de abril de 1656 na França para impedir a mendicância, o
ócio, a desordem – acontecimento que tem explicação no contexto
histórico do século XVII, quando os serviços sociais gradualmente
deixaram o âmbito altruísta da Igreja e migraram para a esfera política
do Estado em formação. A psiquiatria mudaria as regras da internação no
século XIX, dispondo-se a isolar apenas os loucos e resgatá-los do caos
de julgamentos sociais, morais e, no Brasil, raciais. Os preconceitos,
entretanto, estiveram invariavelmente presentes, à semelhança da
sociedade externa aos muros do asilo.
Diário do hospício exacerba o
conceito “escrita de si” formulado por Michel Foucault em texto homônimo
e que contempla a idéia da escrita como exercício pessoal. O autor
estipula dois tipos: os hupomnêmata (cadernos individuais de notas que
servem de ajuda-memória e são uma espécie de livro de vida, guia de
conduta, acumulando citações, fragmentos de obras, exemplos e ações dos
quais fomos testemunhas ou dos quais lemos uma narração, reflexões ou
pensamentos que ouvimos ou que vieram ao espírito; podem também ser
livros contábeis ou registros públicos com anotações desta espécie) e a
correspondência (as cartas também como suportes para exercícios
pessoais).
Percebe-se como, no relato de si realizado na condição de
interno, Lima conjugou elementos dispersos e fragmentados que remetiam
invariavelmente a si mesmo: descrições do hospício, com sua hierarquia,
rotina, médicos, funcionários, doentes – e a inserção de si nesse
contexto; reclamações quanto à inadaptação ao cotidiano do hospício;
revolta pela internação à sua revelia; auto-análise: fracassos,
problemas familiares; críticas à sociedade como sistema (hipocrisia,
sistema de pistolões, desigualdades, discriminações) que guardam
coerência em relação às que constam das crônicas e romances de sua
autoria; confissões gerais de si; desabafos existenciais; teorias sobre a
loucura; teorias sobre a literatura; citações de autores diletos;
anotações de informações tão simples como o número de telefone de um
amigo editor, etc.
Lima Barreto inicia o Diário do hospício sob
efeito do trauma da internação, e suas anotações constituem um dos meios
com que lidou com o choque, representando, simultaneamente, formas de:
afirmação da subjetividade; manutenção da sanidade; busca de uma
pretensa verdade de si. O primeiro parágrafo do diário é um esforço de
autoconvencimento da internação: em 4 de janeiro de 1920, Lima escreve
que se encontra internado no hospício desde 25 de dezembro de 1919,
tendo ali chegado pelas mãos da polícia. Em seguida, dá seu depoimento
sobre o primeiro golpe de desconstrução de si pela instituição:
“Tiram-nos a roupa que trazemos e dão-nos uma outra, só capaz de cobrir a
nudez, e nem chinelos ou tamancos nos dão. Da outra vez que lá estive
me deram essa peça do vestuário que me é hoje indispensável. Desta vez,
não. O enfermeiro antigo era humano e bom; o atual é um português (o
outro o era) arrogante, com uma fisionomia bragantina e presumida.
Deram-me uma caneca de mate e, logo em seguida, ainda dia claro,
atiraram-me sobre um colchão de capim com uma manta pobre, muito
conhecida de toda a nossa pobreza e miséria (BARRETO, 1993, P. 23)”.
Este
trecho conjuga descrição realista e denúncia da homogeneização do
vestuário (obrigatoriedade do uniforme do manicômio) e do desejo. Uma
vez enquadrado na lida do asilo, devidamente uniformizado (apesar de
faltar-lhe calçados), Lima – àquela altura autor de Recordações do
escrivão Isaías Caminha (1909), Triste fim de Policarpo Quaresma
(publicado em folhetim no Jornal do Comércio em 1911 e em livro, em
1916) e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), só para citar o
tripé básico da sua obra de ficção – foi provisoriamente destituído da
identidade pregressa. De “escritor” passou a “doente mental”; de
“jornalista-intelectual” a “alcoólatra-neurastênico”. Apesar da perda
(do status literário, de intelectual), manteve a escrita como exercício,
como reação à institucionalização de si.
Esse diário pode ser lido
como o esforço de reconstrução de fragmentos do eu, organização de
delírios (decorrentes do alcoolismo) e pensamentos, entre outras
finalidades. Um dos pontos marcantes é a multifuncionalidade da “escrita
de si” de Lima Barreto, isto é, desta escrita
institucional/anti-institucional, que a priori se diferencia no estudo
da literatura por sua vocação, justamente, institucional (por ser
produzida dentro de uma instituição, em situação de cárcere/internação),
mas que se traduz dialeticamente como antídoto à instituição. Se
Plutarco acreditou na escrita como transformadora da verdade em éthos,
Lima Barreto – que, aliás, cita Plutarco mais de uma vez no Diário do
hospício – utilizou o diário como remédio, o meio pelo qual seria
possível remediar-se da rotina no hospital psiquiátrico e alcançar um
modo de ser privado, solitário, não-coletivo. Aos olhos da psiquiatria
brasileira das décadas de 1910-20, contudo, esta escrita representaria
mais uma espécie de placebo, princípio farmacalogicamente inativo, do
que medicamento eficaz para a cura de uma psicopatologia.
Para o
autor, a urgência do diário teria a função de prova da verdade de si.
Eterno inadaptado, Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) nasceu
mulato, carioca, filho de um mestre de oficinas de composição
tipográfica, e trilhou diversos caminhos institucionais, terminando,
invariavelmente, à margem. Embora tenha recebido instrução acima das
expectativas para um mulato à sua época (descendente de escravos, Lima
nasceu sete anos antes da Abolição da Escravatura), ele apresentava
incapacidade de se “institucionalizar”. Freqüentou a Escola Politécnica,
mas não obteve o diploma; passou no concurso para amanuense na
Diretoria do Expediente da Secretaria de Guerra, trabalhando como tal,
sendo, porém, precocemente aposentado; concorreu à vaga de acadêmico na
Academia Brasileira de Letras sem obtê-la; foi avesso ao casamento,
terminando os dias na solidão, na casa da família original que tanto
desprezava.
A solidão do “a-social”¬, sobretudo quando radicalmente
isolado da sociedade da qual se diferencia (condição agravada no
hospício ou na prisão, por exemplo), é flagrante nas palavras de Lima:
“Estou entre mais de uma centena de homens, entre os quais passo como um
ser estranho. Não será bem isso, pois vejo bem que são meus
semelhantes. Eu passo e perpasso por eles como um ser vivente entre
sombras – mas que sombras, que espíritos? As que cercaram Dante tinham
em comum o stock de idéias indispensável para compreendê-lo; estas não
têm mais um para me compreender, parecendo que têm um outro diferente,
se tiverem algum (BARRETO, 1993, P. 23).”
Percebe-se como a impressão
da incompreensão do outro acompanha-o no novo círculo social
estabelecido no domínio do hospital psiquiátrico. Lima restabelece a
relação conflituosa com o outro, cita o Inferno de Dante, identifica-se
com o martírio humano e evoca sombras, espíritos, incapazes de
compreendê-lo em si. Diante da incomunicabilidade no hospício, o diário
se afirma como meio peremptório da distinção de Lima entre seus
“semelhantes”; uma “técnica de si” passível de dirimir a estranheza e
restituir a familiaridade que, em última instância, o sujeito mantém
apenas consigo. Afinal, “o narcisismo é com certeza o recurso
fundamental do diário íntimo [le narcissisme est bien sûr le ressort
fondamental du Journal Intime] (BESANÇON, 2002, p. 43).”
O trecho
demonstra a sensação de estranhamento do escritor em um ambiente,
paradoxalmente, muito familiar durante infância e adolescência. O pai de
Lima Barreto trabalhou como almoxarife e administrador das Colônias de
Alienados da Ilha do Governador durante 11 anos, habitando na própria
área do hospício, conforme o antigo sistema de “colônia”. Neste período,
Lima freqüentou o manicômio, na condição de filho de um administrador,
que corresponde a um cargo não humilhante e de razoável posição na
hierarquia da instituição. Órfão de mãe desde os 7 anos, tinha apenas 10
quando se viu obrigado a passar os finais de semana em “casa”, isto é,
no hospício, após cumprir semana de estudos no colégio interno, às
custas do padrinho, o Visconde de Ouro Preto. A habitação no domínio da
loucura só foi interrompida quando seu pai enlouqueceu e foi
precocemente aposentado, levando a família a morar no Engenho Novo e
obrigando Lima, então com 21 anos, a assumir maior responsabilidade
financeira na dinâmica doméstica e a lidar com a insanidade dentro de
casa. Ou seja, a “loucura” se avizinhou da “casa” durante quase 3/4 da
vida de Lima. É importante ressaltar ainda a sua primeira internação no
Pedro II, de 18 de agosto a 13 de outubro de 1914, sob o mesmo
diagnóstico de alcoolismo, seguida de uma licença para tratamento de
saúde do Ministério da Guerra, de 1º de novembro a 31 de janeiro de
1915, sob chancela médica: “neurastenia”.
Este parêntese biográfico
serve de suporte à compreensão da conflituosa relação de familiaridade e
estranhamento demonstrada no diário. O convívio com “loucos” era-lhe
próximo, mas a “loucura” permanecia um mistério, sobretudo devido ao
exemplo paterno: o pai passou de administrador do hospício a paciente.
Nota-se a grande dificuldade de situar-se, a si, na hierarquia do Pedro
II, já que, na pirâmide do poder das colônias da Ilha do Governador,
detinha condição privilegiada, como se imunizado contra a doença mental e
contra a indigência da instituição. A posição de filho de um
administrador rendia-lhe, de início, privilégio na prática e segurança
(psicológica) na teoria. Quando o pai sofreu surto psicótico sem
retorno, esta autoconfiança se abalou, provocando uma insegurança
psicológica devidamente registrada no diário: “Oh! Meu Deus! Como eu
tenho feito o possível para extirpá-lo {o alcoolismo) e, parecendo-me
que todas as dificuldades de dinheiro que sofro são devidas a ele, e por
sofrê-las, é que vou à bebida. Parece uma contradição; é, porém, o que
se passa em mim. Eu queria um grande choque moral, pois físico já os
tenho sofrido, semimorais, como toda a espécie de humilhações também. Se
foi o choque moral da loucura progressiva de meu pai, do sentimento de
não poder ter a liberdade de realizar o ideal que tinha na vida, que me
levou a ela, só um outro bem forte, mas agradável, que abrisse outras
perspectivas na vida, talvez me tirasse dessa imunda bebida que, além de
me fazer porco, me faz burro. (BARRETO, 1993, P. 32).”
O trecho
aponta para outra hipótese: o diário como saída de emergência à
abstinência, substituto da bebida. E revela uma insatisfação consigo
bastante insistente em diários íntimos. Nota-se que suas questões, das
ontológicas às mundanas, acabavam sempre por remeter a si, a uma
auto-avaliação, ou auto-análise, no senso mesmo da terapia
psicanalítica, embora sem a presença do psicanalista. Isto porque o
diário potencializa desabafos, aflições, confidências de si, em
substituição ao contato com o social. Livra Lima das relações sociais no
hospício ao ocupar o privilegiado lugar de confidente e destruir
rastros de um instinto sociável; dilui as resoluções tomadas pelo autor,
condenadas à inação uma vez transcritas sem que um olhar externo as
leia com censura, anulando a necessidade de punições; dispensa o autor
da vida como ela é, evitando-lhe percalços concretos e construindo um
espaço quase idílico (como na ficção), onde o eu tem toda autonomia, é o
herói, anti-herói, da farsa, sem, necessariamente, um comprometimento
com a “verdade”. Diário do hospício, naquilo que traz de escrita de si,
é, por fim, o grande libertador, a desculpa anti-social, a escrita de
alforria do eu.
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